sexta-feira, janeiro 16, 2004

entretextos melancÛlicos

1.

Janelas fechadas, ventilador ligado. Observava as gotas que batiam desanimadas na rachadura da janela. Pegou o telefone, ligou-o e desligou-o. Comeu a meia bolacha que sobrava no prato e colheu as migalhas com a ponta do indicador. O travesseiro encaixou macio nas suas orelhas. E largou o travesseiro. E o agarrou no meio das pernas. E tornou a chut·-lo para debaixo das flores da coberta da cama. O telefone est·tico e convidativo. A mensagem familiar na secret·ria eletrÙnica, desencorajadora. Off. Uns fios de cabelo batiam no rosto suavemente, impulsionados pelo giro constante da hÈlice do ventilador. Calor. Levantou-se para pegar mais biscoitos na cozinha. Antes de alcanÁar a porta, desistiu e deitou-se de torso sobre as flores amarelas amareladas. O corpo assume nessas horas um peso que n„o costuma ter, vinte toneladas cada braÁo. Fechou os olhos para n„o pensar, sabendo ser inevit·vel. Ensaiou uma meia l·grima e fez que n„o fez. O relÛgio mudou um minuto no visor verde-brilhante. Nada. E o travesseiro e o ventilador e as migalhas no prato n„o eram consolo. Eram disfarce. Farsantes, disfarÁavam.

2.

Ser„o elas, muitas molÈculas ag·-dois-Û condensadas no microcosmo de uma gota, c˙mplices da minha morosidade? Ser„o vocÍs, pontos dí·gua sonsos, forÁa motriz da minha falta de forÁas? Sei que chove e eu chovo. Chovo dentro do terno com frio sob a rajada gÈlida do ar condicionado numa sexta morta e chuvosa. Chovo em gotÌculas de des‚nimo ralentado, espalhadas sobre a epiderme. Chandon e choro para chamas chamuscadas. Se correm felizes, molhando o corpo tenaz com ·gua de chuva, n„o sei. Chovo de tÈdio no fastio da sesta.

3.

Tinha que ter um 3, porque o tÈdio È sempre Ìmpar.


quarta-feira, janeiro 14, 2004

réquiem para um bebê imaturo
Eu sei. Você, você. Eu e eu. Eu te entendo juro. E isso é o mais difícil. Se não morresse agora, tão próximo do parto, morreria depois e mutilaria o mesmo. Ou não, ou mais... E seria tão apavorante, tão horrivelmente bonito quanto. Mas haveriam flores no caminho. E eu teria descoberto porque gosto tanto desse tanto. Mas não choremos. Digo, choremos, choremos tudo. Não era o momento certo. Que seja, então! Talvez não fôssemos nós, nós mesmos. Queria ser o eu que teria que ter sido. Não. Chega de ais e lamentos. Sofrimento sim, lamento não. Porque não lamento. Nada.



e o poemoblogue pede s.o.s.



o trem que chega é o mesmo trem da partida (m.n.)
Não me diga eu te amo. Me diga talvez e me tira do tédio. Prometo então que lhe serei seu sem ser inteiro. Serei pleno em mim mesmo e seremos felizes apenas por sê-lo. Porque eu digo eu te amo. Mas só pra mim, escondidinho. Sonhando secretamente o dia em que você estará pronto para ouvir. Mas se me disser eu não quero eu choro por inteiro. Porque te quiero mesmo que você não queira.


segunda-feira, janeiro 12, 2004

Meu terno cinza se camufla no cÈu e tremula no vento que sopra com forÁa. Por dentro, esse alÌvio e descontrole descomunais. Meus pÈs mal tocam o ch„o, e n„o direi mais do que isso. Porque estou aprendendo o verdadeiro significado do clichÍ, a felicidade È feita de pequenas alegrias.