quinta-feira, janeiro 08, 2004

Um arm·rio trancado e sem chave
… fato popular que a minha vida sexual-amorosa n„o È das melhores. Se a culpa È minha, dos outros ou da temperatura, deixemos para os especialistas. Sempre acabei dividindo minha atraÁ„o pelos homens em dois diferentes tipos: sexual e intelectual. N„o de modo intencional, apenas era assim que acontecia. Chamem de auto-boicote, se quiserem. Nunca vivi um romance de verdade, pleno. Igualmente problem·tico e puro. Nunca. Apenas fragmentos de relaÁıes erradas, guiadas somente pelo meu instinto sexual escorpiano pouco desenvolvido. Mas com ele n„o È assim. Eu o conheÁo h· poucos dias, mas me sinto completamente atraÌdo por ele. Pelos seus olhos meigos, pelas suas expressıes sedutoras e tambÈm pelo pouco que conheÁo de seus gostos intelectuais. O que falta, ent„o, para me entregar sem receios? Sim, a grande barreira que sempre ir· existir. Sempre haver„o homens heteros perfeitamente maravilhosos e perfeitos para mim. E eu n„o tenho, ainda, forte convicÁ„o de que ele n„o saiba ‡ homossexualidade. Mas a barreira. A barreira sempre ser· uma possibilidade, um espinho. N„o importa o qu„o assumido eu seja, o quanto eu vista a camisa e berre alto que n„o tenho vergonha. Sempre haver· o impasse ou, pior, a d˙vida.
Enquanto eu escrevia essas linhas lamentosas e sofria por dentro, ele ligou e veio me visitar, e ent„o esse final ser· verde como deve ser. Porque a ˙nica arma contra todas os lam˙rias da vida È uma sÛ: a esperanÁa. Quando essa tremedeira de felicidade toda passar, eu volto a pensar como um ser humano normal.


terça-feira, janeiro 06, 2004

"Reconhecer os direitos LGBT È um sinal de democracia ñ tal como È a luta contra qualquer discriminaÁ„o, exclus„o ou violÍncia e pela inclus„o e igualdade. … um tema que nos afecta a todos, n„o sÛ os LGBT! Ser· que eu, como heterossexual, quero viver numa sociedade onde as pessoas GLBT n„o s„o tratadas com igualdade? … uma quest„o de democracia e direitos iguais. N„o de cidadania de primeira, segunda ou terceira classe ñ direitos iguais quer dizer direitos iguais".

Kursad Kahramanoglu, co-secret·rio da ILGA (Internacional Gay and Lesbian Association).

Na ˙ltima sess„o da Comiss„o de Direitos Humanos das NaÁıes Unidas o Brasil fez uma proposta de resoluÁ„o sobre "direitos humanos e orientaÁ„o sexual" (E/CN.4/2003/L.92) a qual afirma que a diversidade sexual È parte integrante parte integral dos Direitos Humanos Universais tal como refletidos na DeclaraÁ„o Universal dos Direitos Humanos.

Como conseq¸Íncia, 53 naÁıes estar„o presentes em Genebra em MarÁo prÛximo para discutir, argumentar e votar e depois declarar publicamente se acreditam que a orientaÁ„o sexual È um direito humano ou n„o.

Fonte: AsAssumidas Clique para mais informaÁıes.



Di·logo insano do dia
Em plena duzentos e oito sul. Um senhor de chapÈu estilo caubÛi, bigode mais largo que a boca, camiseta branca, bermuda centro-queixo e meia atÈ as canelas. Caminha em minha direÁ„o, dedo rÌspido de quem pede auxÌlio. AtÈ que eu me mostro acessÌvel e ofereÁo ajuda. Ele levanta o bigode bem alto e diz, apontando para minha irm„: Ela È sua avÛ? E solta uma gargalhada vinda de logo abaixo do coz da bermuda, no diafragma. Eu e minha avÛ de treze anos sorrimos amarelo e seguimos nossa jornada.


segunda-feira, janeiro 05, 2004

Deu uma saudade, agora. Saudade irracional e irreal, de algo que n„o tem retorno: a ignor‚ncia. Li hoje uma tirinha do Calvin em que ele dizia que quanto mais crescia, mais complexas ficavam as coisas. Ou foi o que eu entendi, com meu inglÍs fora de forma. O que eu queria hoje era passar a tarde sem fazer nada, e, quando chegasse a noite, colocar meu avental e ir servir coisas. Ser garÁom È uma existÍncia simples, agitada, divertida e nada recompensadora. Eu queria n„o ter nenhuma conta pra pagar, textos para escrever, piraÁıes para desvendar. Eu queria n„o querer tanto o tempo inteiro. Ser· disso, a minha saudade? Da simplicidade? Tudo sei È que nada sei. O simples È sempre mais bonito. Hoje eu serei essa crianÁa com os cabelso lisos e bem cortados, bochechas rosadas livres de m·culas, olhos ·vidos de curiosidade. Vou ao cinema, sonhar com amores impossÌveis. Acho que estou apaixonado, pelo impossÌvel.





Época, cinema e traição

Era uma segunda-feira chuvosa e ralentada na Avenida Jaguaré, 1.485, São Paulo, São Paulo.A última reunião de pauta de 2003 na revista Época era uma sinfonia de bocejos, alguns poucos empregados que não puderam viajar por conta do plantão do ano novo. O editor-chefe dava as coordenadas enquanto lambia o açúcar que tentava escapar de sua xícara já vazia de café requentado.

- Então é o seguinte, pessoal. Teremos de publicar uma crítica falando bem de Sexo Amor e Traição. Quem foi à pré-estréia?

Toda a editoria de cultura estremeceu. Não havia um único jornalista que não havia ido. Essas mamatas costumam ser disputadas à tapa, noite de gala com boca livre e celebridades. Mesmo aqueles que fazem pose de cult acabam indo, só pra meter o malho depois em seus blogs pessoais. Cada macaco no seu galho. Na Época, sabiam que jamais poderiam falar mal de um filme da Globofilmes. Um homem de seus trinta e cinco, mas cujos cabelos grisalhos faziam aparentar de trinta e oito, ajeitou o aro preto de seus óculos quadrados e se pronunciou, corajoso.

- Esse filme é uma bosta. Como poderemos achar alguma coisa para elogiá-lo?

E começou o burburinho e as risadinhas particulares de quem sabe como a máquina funciona. Uma jornalista gordinha de cabelos vermelhos e assanhados, até então escondida atrás da samambaia chorona e ao lado da máquina de café, tossiu baixinho, como se pedisse a palavra.

- Eu achei o filme bonitinho, divertido. O Marcelo Anthony fazendo um gay é impagável! Eu até ri bastante.

O editor sorriu.

- Pronto, fechado então. A Martha vai fazer a crítica do Sexo, Amor e Traição. Também estréia no dia primeiro um tal de Adeus, Lênin. Alguém se habilita?

Vários braços se ergueram. Depois eles passaram para a editoria de economia e negócios e o marasmo tornou a imperar.

Foi no sábado quando eu peguei a revista Época esquecida na caixa de correio da minha avó. Eu a deixei no saco plástico, lacrada pelo nome Elka Cavalcante, como se ela ainda tivesse algum interesse em abrir aquela edição. Naquela tarde eu fui com alguns amigos assistir Adeus, Lênin, depois de sermos desaconselhados de assistir uma adaptação brasileira do mexicano Sexo, Pudor e Lágrimas. O Jornal do Brasil elencava as estrelas na ficha técnica do filme, com destaque para a direção de Jorge Fernando. Saímos do cinema com o tradicional "Eu gostei" nos lábios. E falamos sobre cinema e sobre política, tomamos uma cerveja e demos o sábado por satisfeito. Foi apenas nessa segunda-feira de sol e volta ao trabalho que eu fui ler a Época. Na página 73, ri com o big anúncio que chamava para a estréia da nova comédia brasileira, com Fábio Assunção, Malu Mader, Heloisa Périssé, Murilo Benício, Alessandra Negrini e Caco Ciocler. Vinte e três páginas passadas, lá estava, a crítica da Martha Mendonça. O ótimo Sexo, Amor e Traição alinha-se às comédias cariocas e faz rir das crises conjugais. Na página ao lado, a 97, uma crítica para fazer os cinéfilos cult terem orgasmos. Reinvenção do Comunismo. Lado a lado, um genérico tupiniquim de um sucesso mexicano e um hit europeu. Eu fechei a revista e sorri mais uma vez. Tinha que escrever a respeito.



domingo, janeiro 04, 2004

Vazio, eu não diria. Mas pronto, talvez. Preparado. Porque 2004 começa com várias expectativas e planos. Provavelmente eu serei surpreendido por esses planos todos. Na verdade, eu espero ser surpreendido. Para que servem os planos senão para sofrerem tropeços e supresas? E se alguém me explicasse esse sorrisinho no canto da minha boca, eu agradeceria.