terça-feira, dezembro 16, 2003

Dez por seis. A moça de branco impressionou-se com a minha pressão ligeiramente baixa, enquanto sufocava meu braço. Mandou-me tomar um suco e aguardar a triagem. Tiragem, deveria se chamar. Toma algum tipo de medicamento controlado?Sofre de diabetes ou algum distúrbio da tireóide?Tem tatuagem?Há quanto tempo tem esse piercing? A perguntadeira de óculos era na verdade uma metralhadora. Mantém relações sexuais com prostitutas, drogados ou homossexuais?Homossexuais, né?Fez uso de dorgas injetáveis nos últimos seis meses?Fez uso de algum tipo de vacina? Ok. Olha, você não vai poder doar sangue só por um motivo. Não é preconceito, não. O Ministério da Saúde defende que as relações homossexuais significam mais risco de contração do vírus, mesmo com o uso de presevativos. Mas você pode tomar um lanchinho aqui do lado, tá? A vontade foi de começar a gritar para todas as pessoas que tomavam suco aguado ouvirem. Eu só estava ali porque minha vó está morrendo - digo, acabando com o estoque de sangue do hospital - e eles pediram que três pessoas da família doassem sangue. Eu queria berrar, eles estavam desperdiçando um bom O positivo. Mas não. Eu retribuí o sorriso forçado e fechei a porta com mais força do que queria. Sete por seis, deveria ser a minha pressão.



passo meses escrevendo linhas e linhas de encheção de lingüiça. mas toda vez que me inspiro e escrevo algo que realmente me instiga, todos os meus leitores - todos os cinco - parecem intimidados. estou brocha, confesso, intelectualmente pra baixo.


domingo, dezembro 14, 2003

"A surpresa de Bottom com sua prisão era justificada. Vivendo como prostituto, aprendera que nada causava maior pavor em seus clientes do que o risco de ver revelado o lado homossexual de suas vidas. Muitos eram assaltados em motéis, roubados em casa, espancados, humilhados, preferiam silenciar a recorrer à polícia e ver o nome envolvido em algum escândalo e, o que era pior ainda, associado à palavra 'bicha'. Mesmo os que não escondiam a homossexualidade evitavam as delegacias, por medo de humilhações, piadas, manifestações de desdém diante de suas queixas. Eram contrangimentos quase iguais aos sofridos por mulheres quando iam às delegacias relatar abusos sexuais. Essa foi uma das razões pelas quais o movimento feminista brasileiro exigiu e conseguiu a instalação de delegacias especializadas no atendimento de mulheres."
in ARRUDA, Roldão. Dias de ira : uma história verídica de assasinatos autorizados. - São Paulo : Globo, 2001.

No arroubo que me fez acabar com meu salário, adquiri esse livro e estou adorando. Apesar de muitas histórias serem verdadeiras facadas no estômago, a narrativa em formato de romance policial me faz ficar vidrado. E revoltado, também. A cada página. Porque essa hipocrisia nojenta de faça-o-que-quiser-só-que-dentro-de-quatro-paredes é a raiz dessa nojeira toda. Culpada por condenar os homossexuais à subversão e os trancar em guetos. E eu pergunto até quando seremos poucos. Nós, que levantamos a bandeira e somos tachados como minoria, enquanto os menos corajosos são assassinados em silêncio. Não se trata de expor a intimidade, mas de estar seguro de si mesmo o suficiente para não ter vergonha. Trata-se de dizer na cara da sociedade que há muito mais podridão na normalidade do que no que ela julga ser excessão. Meu muito obrigado vai pro Roldão (olha só a intimidade!), por me ensinar que existem "cadáveres que fedem mais que outros", entre outras coisas.



Deu na Agência Brasil:
Correios viram Papai Noel e lançam programa para presentear crianças pobres no Natal