sábado, setembro 27, 2003

Vi cena de beijo delicada, romântica. Fiquei todo choroso. Mas o beijo que ganhei não foi gentil. Ele me mordeu os lábios e apertou-me contra seu peito. Mesmo assim eu beijei. Tinha que beijar. Não porque ele me comprara uma cerveja e cigarros. Não. Mas porque seu Portunhol era agradável e tinha braços fortes. Agarrou-me uma útlima vez e disse-me que o esperaria do lado de fora. Não espero, vou pra casa. E fui. Bem rápido. Sonhar com beijo delicado no travesseiro vazio.



Hoje realmente senti como se o ar estivesse tão pesado que era possível comê-lo. A minha garganta reclama e eu tasco-lhe pastilha analgésica. Agora, quando as cigarras cessaram seu canto uníssono e intermitente, alcanço alguma paz. Voltando a falar mais um pouco sobre minhas aventuras dramatúrgicas. Pouco, porque não sou bobo o suficiente para vender um peixe que mal foi pescado. É interessante uma coisa: como algo que sempre passara batido pelos meus olhos de repente ganha importância beirando a onipresença?


quarta-feira, setembro 24, 2003

Não tenho tido cabeça para escrever aqui. Tanto reclamei da falta de arte na minha vida que ela veio em avalanche. E na dramaturgia, onde, apesar de nunca ter pisado o pé, estou me sentindo seguro e realizado. Ainda em processo introspectivo de criação, mas a cabeça consumida e escravizada por uma boa idéia.
Hoje tive uma ótima aula de como não fazer. Meu tio-dono-de-bar está em viagem pelos lençóis maranhenses. Me liga então a chef do Café oferecendo convites para uma tal peça na Villa Lobos, que eu nem tinha ouvido falar. Sondei a respeito e acabei achando que seria um bom espetáculo. Aficha técnica contava com excelentes nomes como Bibi Ferraira na direção e Oton Bastos e Guilherme Leme, entre outros, atuando. onome não era animador, mas poderia render algo interessante. DNA - Nossa Comédia. Chamei um amigo e fomos. Do lado de fora, muitos ativistas anti-transgênico declamavam protestos e distribuíam panfletos. Já dentro da sala, quando abriram as cortinas, percebo os atores todos sentados em cadeiras com o texto na mão. Ninguém me avisou que era leitura dramática, pensei, mas julguei que passaria batido. Era na verdade uma leitura dramatizada, bem se via que os atores não tinham se debruçado muito sobre o texto - ou, se tinham, a grande maioria deles estava muito mal, coitados. Não faltaram, porém, figurinos e projeções ao fundo. Além da estrutura capenga, o texto era muito mal escrito e extremamente didático. De aborrecer até madame noveleira que gosta de ir ao teatro ver ator da Globo fazendo qualquer merda. O espetáculo, se é que se pode chamá-lo assim, só foi válido pelos anti-trangenistas, que a todo momento interrompiam, vaiavam e berravam malcriações. A pobre da Rita Guedes se contorcendo para vomitar as suas palavras pró-transgênico. Sorte a dela já ter experiência e jogo de cintura para contornar as interrupções, apesar de estar atuando muito mal na ocasião. É verdade que não sou lá muito fã dos transgênicos, mas acho que se poderia fazer algo em sua defesa com mais qualidade. A única coisa que realmente me intriga é saber quem estava financiando essa peça, com bilheteria fechada, em plena quarta-feira, em sala nobre do Teatro Nacional...


segunda-feira, setembro 22, 2003

Foi quando eu estava no meu carro indo patinar, ainda agora. Me veio como aquela minha conhecida sensação de alívio na espinha. Como quem percebe as coisas entrando no lugar. Aquela angústia que me atormentava, o ócio improdutivo e sufocante que tomava conta dos meus dias, parece ter seus dias contados. É muito simples. Trata-se do equilíbrio mente-corpo-espírito. São tantos componentes para administrar que a dificuldade parece enorme, beirando o impossível. Mas não o é. E agora eu sei disso. Vejo de novo o horizonte, e nele o sol se põe bola amarelaranjado.